Dom, 26 de Janeiro de 2014

Pai Bobó de Oyá

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"Quem sai aos seus não degenera"

Pai Bobó de Oyá - descendente do Axé Oxumarê, fundador do Ilê Oyá Mesan Orun (SP), um dos primeiros terreiros de Candomblé baiano em sua expansão para o Sudeste.

A trajetória de Pai Bobó no Candomblé teve início em 14 de junho de 1.933, quando Yewa de Mãe Cotinha, a primeira mulher a ascender ao trono da Casa de Òsùmárè, informou que ele havia sido escolhido por Yánsàn, para carregar consigo a força dos ventos, elemento primordial desse Òrìsà.

Todavia, era uma época de grande repressão. O Candomblé era perseguido pela polícia e alvejado por outras denominações religiosas e, internamente, o machismo dos Ogans e predominância da figura feminina nos Terreiros da Bahia, cerceava a iniciação de homens Adosu – o caso de Pai Bobó.

A iniciação de José Bispo como Adosu, era fundamental, pois o Òrìsà já havia dito que seria necessário. No entanto, como submetê-lo a todos os processos de iniciação, sem expô-lo aos comentários dos Ogans da época, bem como, aos olhares recriminatórios da soberania feminina?

Yewa de Mae Cotinha sempre muito astuta criou uma estratégia. Durante uma cerimonia interna, Jose Bispo foi apontado como Ogan, era a justificativa para ele entrar no Honkó e fazer suas obrigações. Dessa forma ele foi recolhido, passando por todo o processo de iniciação como um iyawo. No chamado dia do orùko, algo que no Terreiro de Òsùmarè sempre foi restrito, teve na ocasião um número ainda menor de participantes, sendo permitido vislumbrar a saída, somente as pessoas com os cargos mais elevados da Casa. Nascia assim, Oya Gere, Orùko de Pai Bobó, nome que representa o resgate da sua origem e herança africana.

Porém, para que ele não sofresse com a discriminação da época, havia a necessidade de apresentá-lo à comunidade. Assim, José Bispo saiu nos braços de Oya Biyi, Yánsàn de Maria da Encarnação, mãe biológica de Mãe Simplícia de Ògún. Era uma forma de assegurar a determinação do Òrìsà e salvaguardar aquele jovem dos comentários jocosos (além de ser homem iniciado – adosu, filho de um Òrìsà feminino – Ayaba, algo quase inconcebível à época).

Mesmo antes de ser iniciado, Bobó se mostrava uma pessoa extremamente ligada ao Candomblé. Nascido e criado nas redondezas da antiga Mata Escura, atual bairro da Federação, frequentava diversos Terreiros da chamada Linha 15 e estava sempre disposto a aprender. A sua fé era tamanha, que ele não se cansava de repetir: "Quem sou eu para enfrentar o vento? Se é da vontade de Yánsàn, minha vida é dela", relatam os mais antigos da Casa de Òsùmàrè.

A sua dedicação ao Asè e o carinho com a sua casa, rendeu a Pai Bobó o acesso a vários ensinamentos. Era um filho zeloso e estava sempre presente nas obrigações do Terreiro. O ditado foi confirmado. "Um bom filho, com certeza será um bom pai".

Assim, na década de 50, 17 anos após ter sido iniciado, José Bispo dos Santos, saiu de Salvador rumo ao sudeste do País, precisamente ao Rio de Janeiro, vivendo por lá durante sete anos. No Rio, Pai Bobó se destacou como grande sacerdote, estabelecendo fortes laços de amizades com os Babalòrìsàs da região, tais como Joãozinho da Gomeia e Waldomiro Baiano.

Apesar de ter conquistado o respeito no Rio de Janeiro, foi em São Paulo que ele fincou suas raízes e, em 1.954, fundou uma das primeiras Casas de Candomblé do Estado, o Ilé Oya Mésan Orùn.

Foram 33 anos conduzindo o seu Terreiro com grande dedicação, fé e amor, iniciando centenas e centenas de filhos. Pai Bobó ganhou notoriedade sendo respeitado e reverenciado como grande sacerdote do Candomblé em SP, preservando os ensinamentos ora aprendidos em Salvador.

Com efeito, podemos asseverar que José Bispo dos Santos, o querido Pai Bobó, foi um dos grandes responsáveis pela expansão do Candomblé da Bahia para o Brasil. Hoje, seus filhos espalhados por todo o território nacional, reverenciam o seu nome e sua tradição, contribuindo assim, para a perpetuação da sua história.

Em 1.993, Pai Bobó foi levado pelos ventos de sua mãe Yánsàn, retornando para o lugar onde a vida se reinicia. Em verdade, Pai Bobó voltou para os braços de Oya, mas a força, energia e o grande Asè de Oya Gere, continuam vivos, não somente no Terreiro de Òsùmàrè, mas em cada filho desse que foi, um dos maiores sacerdotes da história do Candomblé.

Terreiro de Òsùmàrè

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Nos últimos anos, observamos que os dogmas de nossa religião estão sendo alterados. Pela ânsia e ambição algumas pessoas estão recriando rituais, desrespeitando tradições e a historia de luta e resistência dos africanos escravizados, que com muita fé, nos deixaram um amplo legado cultural e religioso. Preservar e cuidar da memória dos nossos antepassados são uns dos princípios básicos da nossa religião.

Para manter viva a fé, e os cultos religiosos trazidos da África, nossos antepassados enfrentaram a desumanidade que é a escravidão, o massacre cultural e religioso, em uma época que era extremamente proibido qualquer manifestação cultural e religiosa realizada por africanos e afrodescendentes. Em outros tempos, mais tarde, após a falsa abolição, para manterem viva sua crença se submeteram ao sincretismo. Foram obrigados a esconder a sua religiosidade por trás de outros seguimentos religiosos. O culto aos Orixás era considerado uma contravenção legal, passível de pena. Quando flagrados realizando algum dos nossos ritos sagrados, eram presos, torturados e ainda expostos a uma série de humilhações. Eram obrigados a andar com os atabaques na cabeça até a delegacia para que a elite racista tivessem a oportunidade de colocar toda a sua intolerância e racismo para fora. Eram alvo de deboche da burguesia.

Em tempos mais recentes, até a década de 70, a perseguição era ostensiva. Para realizar qualquer cerimônia era preciso conseguir um alvará de funcionamento, que era emitido pela então Delegacia de Jogos e Costumes, que a cada celebração tinham que pagar altas taxas para louvar nossos Orixás. E ainda sim, mesmo seguindo as regras da intolerância e do racismo, pagando todos os impostos e taxas obrigatórias, muitas vezes seus atabaques eram silenciados pela invasão de "agentes da lei" e tinham que começar tudo de novo. Para manter viva a fé, em muitos momentos abdicaram do próprio alimento. Mesmo com fome, tiveram forças para construir os templos que deram origem ao candomblé.

Templos estes, que guardam e preservam a cultura, tradição e conhecimentos. Legado da união de vários povos que se encontravam nas mesmas condições e juntos perpetuaram com muita luta sua fé e plantaram a aliança de várias etnias, de todas as nações, no eixo central destes Terreiros.

Sendo um dos terreiros de candomblé mais antigo do Brasil, e recentemente considerado patrimônio histórico e cultural da nação, a Casa de Oxumarê não pode ser negligente e fazer de conta que não tem conhecimento de determinados fatos que comprometem a continuidade da nossa religião. Se calar mediante a fatos que alteram a essência dos fundamentos deixados por nossos ancestrais é ser conivente com os erros. Portanto, seguindo a nossa tradição ancestral, Iremos relatar as ultimas mudanças que agridem os princípios do candomblé com a intenção de contribuir para restauração do equilíbrio e tradições.

• Apenas uma pessoa pode assumir o posto de Babalorixá ou Yalorixá dentro de um terreiro. Terreiros de Candomblé conduzido e administrado por mais de uma pessoa pode ser considerado, no mínimo, um equívoco. Em um Axé somente um é o escolhido para governar a terra, este é o responsável pelo axé, existe os postos que o auxiliam e também os que tomam conta da grande estrutura religiosa existente dentro de uma casa de candomblé. Mas, o título de Iyalorisxá e Babalorixá não pode, de forma alguma, ser dividido em uma mesma casa. Seria como se tivessem mais de um rei em um único reino.

• É impossível imaginar o funcionamento de uma Casa de candomblé sem a existência de um babalorixá ou Iyalorixá Mesmo tendo os mais altos postos de um axé o terreiro não pode ser dirigido por estes dirigir. Um terreiro não é uma empresa privada, que pode ser administrada por sócios. É um templo religioso que deve ser conduzido pela autoridade máxima, que é o babalorixá ou Iyalorixá. Em caso de sucessão, o Terreiro no período de luto é governado pela Iyalasé; este posto compete a ela transmitir o conhecimento para o próximo sacerdote supremo, pois ela é a Mãe do Axé, a pessoa que tudo viu e aprendeu e tem o dever de passar para o sucessor do babalorixa ou Iyalorisa, que ira tomar posse após as devidas obrigações que encerram o período de luto

• O desrespeito ao luto em virtude da perda do sacerdote. Após o falecimento do babalorisá ou Iyalorisá o terreiro deve permanecer em luto total,apenas se limitando as cerimonias fúnebres. O luto pode levar de um a sete anos conforme determinação dos orixás. -Este período é fundamental para restabelecer o equilíbrio do Terreiro mediante a perda do babalorisá e também é o período em que o orixá determinara o próximo sucessor ou sucessora

• Iniciados abrindo ou dirigindo Terreiros sem serem apresentados a sociedade como sacerdotes. Completado os sete anos de iniciação e tendo o destino de se tornar sacerdote ou sacerdotisa o escolhido pelos Orixás deve edificar um templo e após estrutura-lo para liturgia do candomblé, seu babalorixá ou iyalorixá deve lhe conferir o oyê (título) e apresenta-lo a sociedade como sacerdote ou sacerdotisa. Em caso de sucessão o escolhido deve ser apresentado por 4 autoridades religiosas as mesmas que consuturam o oráculo dos Orixás para saber quem assumiria o trono.

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Sex, 23 de Agosto de 2013

Babá Pecê agradece

Festa de Oxumarê-Café da Manhã-18 copyEu Babá Pecê, agradeço todos os filhos, netos, familiares e amigos, pela presença e colaboração para a realização de mais uma cerimônia religiosa em louvor e regozijo ao patrono do nosso Asè, nosso Pai Òsùmàrè.

Quero registrar que a presença de cada um de vocês, foi de importância fundamental para a realização dessa festividade. Agradeço todos, desde os mais velhos aos mais novos, que se locomoveram para o alto da colina, em uma demonstração de fé e amor, para juntamente conosco, uma vez mais louvar os Òrìsàs.

Peço ao nosso Pai Òsùmàrè, à nossa Mãe Yewa, que retribuam o carinho de todos com vida longa com saúde! Que os Òrìsàs cuidem dos lares, da saúde e da família de cada um de vocês.

Agradeço de coração, as contribuições financeiras, bem como, o tempo e esforços empregados por muitos para que pudéssemos realizar essa importante cerimônia, lembrando que, para os nossos Deuses, ambos possuem o mesmo valor.

Ao longo da semana, observei com muita satisfação o trabalho da nossa comunidade para que tudo acontecesse da forma como ocorreu, os mais novos e os mais antigos, cada qual com sua disponibilidade física buscando fazer algo para a renovação da força que nos move- o Asè. Para mim, tudo isso tem um nome, tem uma explicação - a Fé!

Como líder religioso dessa importante comunidade, trabalharei para melhoramos sempre. Brevemente me reunirei como Conselho Religioso do Terreiro de Òsùmàrè, para distribuirmos as responsabilidades com os mais antigos, valorando a sua importante presença dentro do Asè. Delegaremos equipes para auxiliar os filhos e familiares que percorrem grandes distâncias para professar a sua fé aqui em nossa Casa. Enfim,não medirei esforços para melhorar a cada dia, e acolher os filhos e filhas dos Orisas com o amor que merecem.

Que nosso Pai Òsùmàrè cubra todos de bênçãos e realizações. Que a mesa de cada um seja sempre farta, que todos tenham saúde,prosperidade e felicidades. Que a paz predomine na casa e vida de cada um e que, sobretudo, todos continuem professando essa linda religião que é o Candomblé!

Ahoboboy!

Baba Pecê

Babalòrìsà do Terreiro de Òsùmàrè

ABOBORAOK

Uma antiga história Nàgó, conta que havia quatro amigos que de nove e nove dias realizavam a consulta de Ifá para Olofin. Um desses amigos se chamava Obara.

Sempre que eles realizam o jogo de Ifá, Olofin os presenteava de alguma forma. Certa vez, querendo agradecer todos os trabalhos realizados, Olofin bastante generoso, pegou quatro abóboras colocando uma grande riqueza dentro de cada uma. Em uma ele colocou dinheiro, em outras duas ele colocou contas muito raras e caras e em outra, roupas que somente os reis usam de valor inestimável. Após fazer isso, Olofin chamou Èsù, que de forma mágica, fechou as abóboras fazendo aparentar que as mesmas nunca haviam sido abertas. A intenção de Olofin, era presentear cada um dos amigos com uma abóbora, deixando-os ricos.

Quando os amigos chegaram na casa do grande Olofin, eles realizaram o jogo de Ifá, como de costume. Ao final, Olofin entregou uma abóbora para cada um dos quatro amigos. No entanto, três deles desdenharam do presente, entregando todas para Obara, que não as recusou, juntando com a abóbora que ele mesmo havia recebido de Olofin.

Ao chegar em sua casa, Obara entregou as abóboras para sua esposa, que disse: "Obara, eu não quero abóboras, o que vou fazer com abóboras?". Como estava com fome, Obara resolveu preparar o presente para que pudesse comer. Ao abrir a primeira, ele descobriu que dentro havia uma grande quantidade de dinheiro, espantado ele foi abrindo uma por uma e descobrindo a riqueza que havia nelas. Obara a partir de então tornou-se rico e poderoso. Quando as pessoas lhe perguntavam como ele havia ficado tão rico, ele respondia: "Com Abóboras".

Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos!

Terreiro de Òsùmàrè

nanaok

Hoje vamos discorrer uma antiga história do Candomblé, muito versada nos tradicionais Terreiros de Salvador, a qual aborda dois dos mais venerados Òrìsàs do panteão Nàgó; Nàná a antiga Deusa dos pântanos e Ògún, o Deus do ferro.

Nàná e Ògún foram participar de um clero no qual estariam as demais Divindades do Candomblé. O objetivo dessa reunião era discutir os poderes de cada Òrìsà, bem como a importância desses poderes entre eles.

Logo no início, eles destacaram a importância de Òsàlá, a Divindade que criou os seres, que por meio do sopro divinizado dá vida à humanidade. Salientaram os poderes divinatórios de Orunmilá, o testemunha do destino das pessoas, aquele que se senta ao lado de Deus. Lembraram-se sobre o papel singular de Èsù para a vida não somente dos humanos, mas também para os demais Deuses. Recordaram da importância de Ori, a Divindade que cuida da cabeça das pessoas.

Dado momento da reunião, todos começaram a ressaltar a importância de Ògún. Os Òrìsàs teciam elogios ao Deus do ferro, mencionando que é por meio dos instrumentos construídos por Ògún que eles podem viver. Um disse que é por meio da enxada que Ògún fabricou que é possível tirar o alimento da terra. Outra Divindade mencionou que eles comem por meio do facão de Ògún. Eles exclamavam: "Nós precisamos muito de Ògún, todos devemos prestar homenagens a Ògún".

Nesse momento, no entanto, Nàná mostrou seu descontentamento: "Como assim, o trabalho de Ògún não é tão importante com vocês estão falando". Nàná disse ainda, que não dependia de Ògún para nada e que jamais iria lhe render homenagens.

Ògún, por sua vez afirmou: "Nàná, se todas as outras Divindades concordam em me prestar homenagens, você também deve fazer".

Desse modo, Nàná e Ògún ficaram um longo tempo discutindo, cada um defendendo os seus argumentos.

Nàná finalizou dizendo que ela não prestaria homenagem sequer a Ògún, que a interpelou dizendo: "Já que é assim, você Nàná não poderá usar nada que é meu por origem. Você não poderá usar a faca, ou nada que seja de metal em seu culto".

Todos acharam justo e, a partir desse dia, no culto de Nàná não utilizamos as ferramentas confeccionadas por Ògún, o Deus do ferro.

Que Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos!

Terreiro de Òsùmàrè