Terça, 15 Janeiro 2013

Baba Pecê fala sobre a importância da ancestralidade no Candomblé

Diferente de algumas crenças, no Candomblé, não há o costume de ir aos cemitérios para reverenciar os nossos antepassados no dia de finados. Entretanto, um expressivo número de Terreiros, utiliza o feriado católico para poder louvar e reverenciar os ancestrais. Sobre isso, nosso querido Pai Pecê comenta: "Aqui na Casa de Òsùmàrè,... nós cultuamos os nossos antepassados no primeiro domingo de cada ano, mas nós respeitamos muito o dia de finados. Muitas casas realizam as oferendas aos ancestrais nessa data por um motivo histórico. Antes mesmo da chamada época da Linha 15, aqueles grandes tios e tias que trouxeram a Religião dos Òrìsàs para o Brasil, eram fortemente perseguidos pela polícia e também pela igreja. Toda prática religiosa desses negros africanos era tida como contravenção, sendo muito difícil louvar os Òrìsàs e os ancestrais. Aqui mesmo na roça, o espaço onde fica os atabaques é recuado da parede do salão, pois se a polícia chegasse para rasgar o couro, bastava fechar esse espaço com uma cortina, preservando os instrumentos sagrados. Da mesma forma, esse povo antigo, de forma muito sábia, abraçou o dia de finados para celebrar as homenagens aos nossos ancestrais. Como naquela época, a maioria da população era católica (inclusive os policiais), aqueles africanos conseguiam louvar os ancestrais nos Terreiros de Candomblé de forma mais tranquila, sendo que nesse dia, a repressão era menor, pois mesmo os policiais iam aos cemitérios para cuidar da sepultura dos seus entes falecidos". O nosso Pai Pecê, nos fala ainda, que mesmo os Terreiros que não realizam oferendas aos ancestrais devem ter respeito por essa data. "Todos nós devemos respeitar essa data, não por ser um feriado católico, mas sim, por ser um dia em que muitos Terreiros evocam os ancestrais. A nossa religião possui um grande poder invocatório, então nesse dia, muitas energias estão pelo ar, sendo muito importante que as respeitemos". O Candomblé é uma Religião ancestral, na qual acreditamos que há vida após a morte. Nós devemos ter um sentimento de gratidão por aqueles que se foram e não podemos imaginar que a morte é o fim, conforme comenta Pai Pecê: "Nós acreditamos que a morte não é o fim, mas sim o recomeço. Muitas cantigas que são entoadas nos rituais fúnebres ou de celebração aos ancestrais falam isso. Na nossa religião, quando uma pessoa de nossa família falece, ela será cultuada e lembrada pelas gerações seguintes. Esses ancestrais, que nós chamamos de Esá e Egúngún, são muito importantes para o equilíbrio da vida aqui no plano que nós estamos. Mesmo após a morte, esses Esás são consultados de forma que eles orientem os passos que nós devemos seguir. No Candomblé é essencial mantermos os ancestrais apaziguados, de forma que eles nos propiciem uma casa com paz e com a força vital fundamental para a realização e transformação do Asè". Nosso Pai Pecê, alertar-nos que devemos sempre respeitar os nossos ancestrais e que, renegar e esquecer-nos de nossas origens e de nosso passado é a condenação sentenciada por nós mesmos do nosso futuro. Recorda, ainda, que a importância dos nossos antepassados é tão fundamental que, nós os reverenciamos mesmo antes de festejar os Òrìsàs, por meio da cerimônia do Ipade, que por meio de rituais e cantigas específicas, saúda e rende homenagens a toda ancestralidade do Terreiro. Por fim, nosso Pai Pecê fala que devemos refletir sobre a importância dos nossos ancestrais e que devemos de ser muito gratos por tudo que eles fizeram para que pudéssemos estar hoje, cultuado e louvando os Òrìsàs e os nossos antepassados. "Nesse dia muito importante, eu peço às pessoas do Candomblé que reflitam sobre a grande importância que nossos antepassados tiveram e ainda têm. Nossa cultura foi muito massacrada, nossos avós, bisavós, tataravós chegaram aqui na pior condição humana, a condição de escravo e mesmo assim, lutaram com muita determinação para que hoje pudéssemos cultuar os nossos Deuses. Os nossos ancestrais foram mulheres e homens de um grande saber, de uma inteligência única. Eles conseguiram superar todas as dificuldades que surgiram. Mesmo com tanta repressão, com tanta dor e lágrima, eles conseguiram perpetuar uma cultura tão linda que é o Candomblé. Todos nós, nesse dia, devemos agradecer muito as pessoas que mesmo sofrendo o ardor da chibata, conseguiram fundar esses Terreiros centenários, como a Casa de Osumare, a Casa Branca, o Gantois, o Opo Afonjá, o Alakétu, o Bogun, o Kwe Seja Unde, o Kupapa Unsaba e tantos outros. Eu, como Sacerdote de uma casa centenária, filho e neto de Ìyálòrìsàs que lutaram para perpetuar o Candomblé, penso que a melhor forma de rendermos homenagem aos nossos ancestrais é refletir sobre como podemos fazer para seguir os seus passos. Nós devemos nos unir, devemos juntar forças da mesma forma que os nossos antepassados juntaram para superar a escravidão, a repressão. A melhor homenagem que podemos fazer para os nossos antepassados e lutar para a defesa da nossa religião, pela defesa dos nossos direitos. Se nós conseguirmos nos unir da mesma forma como os nossos ancestrais se uniram, seremos uma religião forte, com poder de fala e, principalmente, respeitada em toda a sociedade. E nesse dia, de reflexão e devoção, eu peço a todos os nossos ancestrais que olhem por cada um de nós, que nos dê caminhos a seguir, que nos mostre o certo, que confortem os nossos corações para que possamos seguir em frente e para que, sobretudo, possamos cada dia mais, honrar tudo o que eles fizeram por nós". Casa de Òsùmàrè
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