Ontem, 18 de maio de 2012,Babá Pecê de Oxumarê, acompanhado de comitiva integrada por Mae Tânia de Oxossi, Babá Egbé Leandro de Oxumarê, André Luis Nascimento, Ogã de Xangô, Edelamare Melo e Frederico Lacerda, respectivamente Yaôs de Xangô e Oxaguiã, procederam à entrega oficial da atualização do laudo antropológico do ILÉ ÒSUMÀRÉ ÁRAKÀ ÀSÈ ÓGÓDÓ, a Casa de Oxumarê, a Dr. Carlos Amorim, Superintendente Regional do IPHAN na Bahia. O laudo é assinado pelo renomado antropólogo Ordep Serra, einstruído com Parecer Jurídico de Willis Santiago Guerra Filho, jusfilósofo e professor titular da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da PUC de São Paulo, além de arquivo digital do acervo da Casa.

A desafiadora tarefa que envolveu esta produção bibliográfica foi possível graças a todos os filhos e filhas de Santo da Casa de Oxumarê e do apoio técnico-financeiro do IPHAN no contexto do Projeto "Memória e História da Casa de Oxumarê: Tradição Ancestral e Saber ", objeto do CONVÊNIO IPHAN N.º752168/2010, Processo nº. 01450.013541/2010-42. Produção bibliográfica única que, de forma inovadora e criativa própria da maestria de Ordep Serra, lança mão da utilização complementar de fontes escritas e orais, o que permite afirmar a presença de uma verdadeira e concreta interface entre história e etnografia que, cruzadas de forma crítica, permitiu a abertura de caminhos para compreensão da história do ILÉ ÒSUMÀRÉ ÁRAKÀ ÀSÈ ÓGÓDÓ e do seu legado material e imaterial para a preservação da história e cultura de África que não seriam possíveis a partir da utilização exclusiva da fonte documental.

A Casa de Oxumarê se constitui em um importante templo religioso de matriz africana no qual se professa a religião do candomblé que, diferentemente do cristianismo, com a bíblia, e do islamismo com o Corão, não possui um livro revelado por Deus para ser utilizado como guia para os seus fieis. O candomblé é uma religião de transmissão oral do sagrado cujo conhecimento de seus segredos e preceitos, desde a sua origem,é reservado e transmitido a poucos que os merece receber, por suas qualidades ou designação dos Orixás, circunstância que, uma vez mais, sob o influxo inexorável da força do tempo, conduz à possibilidade de existência de dessemelhança entre o passado e o presente, o que contribui para a construção de um patrimônio cultural, material e imaterial único e marcado pela diversidade que afirma a sua identidade e a marca essencialmente plural na qual é construída a unidade do ILÉ ÒSUMÀRÉ desde a sua fundação.

A atualização do laudo antropológico da Casa de Oxumarê teve como objetivos Mapear, sistematizar e preservar a memória, a história e os saberes detidos pela secular comunidade religiosa da Casa de Oxumarê e instruir o processo de tombamento n° 1498-T2, em curso no IPHAN há quase dez anos...o que nos remete à importância do fator tempo que, nas palavras de Caetano, é o "compositor de destinos e tambor de todos os ritmos", em especial do ritmo da existência e da vida das pessoas que formam parte da Associação Cultural e Religiosa São Salvador, personificação jurídica do secular Terreiro

Tempo de existência do ILÉ ÒSUMÀRÉ com seu quase bicentenário histórico de luta e resistência em defesa do direito de professar com liberdade o candomblé, religião de matriz africana de culto aos orixás e voduns que tantas alegrias e dores trouxe a nossos ancestrais Talabi, Salakó, Antonio de Oxumarê, Cotinha de Ewá, Simplícia de Ogum, Nilzete de Yemanjá e, hoje traz a Babá Pecê de Oxumarê, e aos filhos e filhas de santo de ontem e de hoje...

Ter, 27 de Março de 2012

Memórias da Casa de Òsúmáré

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     OGUN DEKISI IMPEDE UMA GRANDE INJUNTIÇA

A fama de Ogum Dekisi, Orixá da saudosa Mãe Simplícia, era conhecida por toda a cidade de Salvador. Pessoas de todos os lugares do mundo vinham até a Casa de Oxumarê para ter a honra de receber um abraço desta divindade de força tão presente. Episódios, como o narrado abaixo, faziam o respeito e admiração pela Yalorixá extrapolar as fronteiras da religiosidade, contribuindo até mesmo para a sua influência política.

Muito bem conceituado como mestre de obras, Seu Hilário, marido de Mãe Simplícia, era sempre requisitado para fazer serviços na área da Construção Civil em várias partes da cidade, mas isso não agradava à todas as pessoas, gerando desconforto e atritos.

Certo dia, Hilário foi convidado para fazer um trabalho em uma residência na Barra, uma casa de uma família tradicional e rica de Salvador. Ao chegar no local, o mestre de Obras, fez a avaliação do serviço e foi embora, voltaria no outro dia para começar. E assim ocorreu, bem cedo depois de seu desjejum, seguiu para o trabalho. Assim que ele saio Mãe Simplícia sentiu algo errado, sentiu vontade de ir atrás dele, porem não conhecia o local do novo trabalho do seu marido. Como esposa dedicada, que era, foi até o pegi de Ogum e pediu que o Orixá olhasse por ele. Assim que terminou de acender a vela, falou para suas que tinha sentindo um aperto no peito e não sabia o que era. Passou o dia inteiro preocupada.

Ao final do dia, por volta das 18h, Mãe Simplícia se sentiu ainda mais agoniada, afinal, seu marido ainda não tinha chegado em casa. Ao ir novamente no pegi, Ogum Dekisi tomou o seu corpo e avisou a todos que estavam presentes:

-Vim aqui apenas para resolver uma pendenga!

Disse Ogum e foi descendo as escadarias da Casa de Oxumarê em direção à Vasco da Gama. As filhas de santo de mãe Simplícia ficaram apreensivas e seguiram o Orixá para onde ele caminhava. De repente estavam em um imenso casarão na Barra. Ao abrirem o portão, encontraram seu Hilário rodeado de Policiais, sendo acusado de um crime que não cometera. Um relógio de ouro tinha desaparecido e Hilário era o principal suspeito e estava sendo encaminhado para a delegacia. Ogum respondeu:

- Foi por isso que vim em terra para dizer que ele é inocente. Desde cedo, eu sabia o que estava sendo armado para culpar este homem e vou mostrar a vocês onde tá o roubo.

Ogum saiu pela casa e em um canto esquecido apontou para os policiais onde estava o velho relógio escondido. Antes, fez questão de dizer para a filha do casal, patrões de seu Hilário:

- Sei que foi você  fez isso para ele ser preso. Se você não quer ele na sua casa, manda ele sair, mas nunca faça alguém pagar por algo que não cometeu.

A garota ao ouvir as palavras da divindade caiu em prantos e assumiu ter levantado o falso para o mestre de obras, simplesmente porque não gostava de negros.

Os pais de prontidão pediram desculpas e quiseram presentear o profissional, que recusou. A família ficou tão grata com o ocorrido e depois desse dia passaram a frequentar a Casa de Oxumarê sempre que podiam. Mãe Simplicia passou a ser sacerdotisa da família.

Essa história se tornou conhecida em toda a cidade e corria junto a fama de Ogun.

Ter, 20 de Março de 2012

Povo de Santo de luto

Ebomi-Cidalia

Egbom Cidália partiu para o Orum e deixará saudades aqui no Aiyê

Uma das maiores autoridades e conhecedoras dos mistérios do Candomblé, Egbom Cidália de Iroko morreu na manhã desta terça-feira, dia 20, de falência múltipla dos órgãos. Deixa dois filhos biológicos e milhares de filhos de santo espelhados por todo o mundo.

Conhecida como a enciclopédia do Axé, Cidália Soledade foi iniciada ainda criança, aos 7 anos, no terreiro do Gantois mas mantinha relações com várias outras Casas em todo o país.

Sempre esteve próxima da Casa de Oxumarê, participava das obrigações desde a época em que Yá Simplicia de Ogum estava à frente do Terreiro. Manteve a mesma relação com Yá Nilzete de Yemanjá. Com o passar do tempo tornou uma grande amiga de Babá Pecê de Oxumarê e também sua conselheira. "Tinha e continuarei tendo muito respeito e admiração por Egbom Cidália. Reconheço toda a sua sabedoria e conhecimento, esteve ao meu lado em vários momentos. Tenho certeza que Iku a levou para o Orum para que se tornasse ainda mais viva em nossa memória e celebrada em nossos cultos", afirmou o sacerdote.

Babá Pecê faz questão de ressaltar que a história de Egbom Cidália precisa ser conhecida por mais pessoas. "É um exemplo a ser seguido, dedicou sua vida aos orixás e se tornou respeitada por isso. É fundamental que o povo de axé conheça essa história", completa o babalorixá.

Sire Oba

A Casa de Oxumarê abriu suas portas, no último domingo, dia 18, para abrigar uma apresentação do espetáculo Siré Obá, da Companhia Nata de Teatro. A peça é livremente inspirada nos Orikis (contos sobre a vida dos Orixás) e faz parte do projeto Oná Ilú Ayê, Saindo para os Caminhos do Mundo.

Em cena, os atores contam as histórias dos Orixás fazendo uma relação direta com os comportamentos cotidianos. "O que eles fazem é teatro e é importante porque aproxima as pessoas da nossa religião, mas o sagrado só se conhece dentro de um Terreiro de Candomblé", explica Mãe Ana de Ogum, agbá da Casa de Oxumarê.

A apresentação foi gratuita e reuniu no barracão da Casa de Oxumarê filhos de santo e convidados da comunidade. De acordo com Babá Pecê possibilitar o acesso à cultura é também função das Casas de Axé. "Temos compromisso com o social. Somos um templo religioso, mas não perdemos de vista a importância da cultura para a formação cidadã das pessoas", diz Babá Pecê.

Além da Casa de Oxumarê, outros Terreiros serão contemplados com apresentações do esptáculo. O próximo será o Gantois, no dia 25, às 14h.

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Agbá Walquíria de Oxum ensina a usar o oló.

Dicas de como abrir um empreendimento individual ou até mesmo como ser uma vendedora ambulante bem sucedida. Essas informações fizeram parte da oficina que realizada nesta segunda-feira, dia 12, na Casa de Oxumarê.

Realizada pela Associação das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivos da Bahia (Abam), a oficina faz parte do projeto Sabores e Saberes, financiado pelo Fundo Elas de Incentivo Social. Além das dicas de empreendedorismo, os participantes discutiram A Invisibilidade da Trabalhadora Afro descendente.

Para o Babalorixá do terreiro, Babá Pecê, a discussão do tema é sempre atual e importante para a projeção de novas lideranças. "O terreiro de candomblé deve ser além de um templo religioso, também um espaço para debates positivos que possam contribuir com o empoderamento do nosso povo", afirma Babá Pecê.

História – Quem participou da oficina teve a oportunidade de conferir como os acarajés e acaçás eram feitos pelas baianas até o século passado, e que a Casa de Oxumarê preserva até hoje. A agbá do Terreiro, Walquíria de Oxum apresentou o modo adequado de utilizar a Oló, pedra que tritura os grãos de feijão fradinho e de milho branco. "Foi assim que minha mãe Simplícia me ensinou e que até hoje, quando fazemos as obrigações para Xangô, Yansan e Oxalá utilizamos essa pedra e seguimos os rituais dos nossos antepassados", explica a agbá.

A pedra utilizada na apresentação tem mais de 100 anos e fica guardada em um local reservado e só retirada durante as cerimônias internas da casa. Poucas similares existem da pedra de Oló.